Cinthia Pascueto - AgN/PV
http://www.olharvital.ufrj.br/2006/?id_edicao=163&codigo=10
Diz a lenda que um pastor de cabras descobriu o café ao encontrar seus animais mascando certa semente, de uma frutinha vermelho-escura. Esse pastor apresentou, então, a descoberta a religiosos, que passaram a consumir a bebida para orar até mais tarde. Em pouco tempo, o gosto pelo café se espalhou por todo o Oriente Médio, levando até o criador do Islamismo a render-se aos seus encantos: ficou conhecida como o Elixir de Maomé. Com as Cruzadas, não demorou muito para os europeus adotarem o cafezinho. Começava a era das cafeterias. Para sustentar o luxo de degustar essa bebida escura e levemente amarga, as metrópoles européias descobriram logo uma solução: cafezais imensos nas Américas. Está explicado como o Elixir de Maomé foi parar em nosso café da manhã tupiniquim.
Desde que o gosto pela bebida se espalhou pelos continentes, não faltam pessoas que alegam ser viciadas em café. Segundo Darcy Lima, professor no Instituto de Neurologia Deolindo Couto (INDC/UFRJ), esse vício não passa de mito. “A primeira coisa que cada ser humano faz ao nascer é se tornar dependente químico. Ao respirar pela primeira vez o recém-nascido torna-se dependente do oxigênio para todas as atividades bioquímicas de seu organismo. Por isso podemos ser dependentes de coisas saudáveis, como água, leite, café e exercícios (hábitos saudáveis) ou dependentes químicos de substâncias que prejudicam a saúde (vício), como o tabaco, álcool e drogas ilegais”, diferencia o professor.
– Tomar café é um hábito saudável comparável ao exercício, recomendado para pessoas saudáveis, sem doenças, de forma moderada e regular. Tudo que ocorre na nossa vida causa reações químicas no cérebro que são responsáveis por alegria ou tristeza, prazer ou dor, bem como todas as outras emoções possíveis – explica Lima, que garante: “Café não causa dependência, mas bem-estar.”
Dose ideal
De acordo com o médico, o café pode ser consumido diariamente por pessoas de todas as idades, entretanto de forma moderada – o que não causa mal a ninguém. A bebida só não é recomendada para pessoas que possuem sensibilidade à cafeína, devido a doenças como gastrite, refluxo gastroesofágico, úlcera péptica, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do pânico, palpitações devido a arritmias cardíacas, hipertensão arterial ou doença isquêmica do coração. “O café pode agravar os sintomas ou a doença, principalmente se consumido em excesso. É importante, nesses casos, consultar um médico”, alerta Darcy Lima.
Caso a pessoa sinta qualquer intolerância ao café, deve parar de consumi-lo. “É importante lembrar que o café não é remédio, mas pode ser um agente a mais que ajuda na prevenção de várias doenças e problemas”, ressalta o especialista, que aponta a média de quadro doses diárias de café como o consumo ideal, com quantidades individuais que podem variar de acordo com a idade do consumidor (confira o quadro a seguir).
Para descobrir se uma pessoa passou do limite no consumo de café, basta observar alguns sinais. As principais manifestações acontecem no sistema nervoso central e cardiovascular, como insônia, agitação e hiperexcitabilidade. “A pessoa sente-se inquieta, agitada, com um discreto mal-estar e ansiedade. A seguir ocorrem taquicardia, sensação de zumbido nos ouvidos e distúrbios visuais que parecem pequenas faíscas no ar. A musculatura torna-se tensa e trêmula e podem ocorrer palpitações, devido ao surgimento de extra-sístoles (descarga elétrica de células do coração, fora do marcapasso natural desse órgão)”, descreve o médico.
Nesses casos, a morte pode ocorrer em virtude do aparecimento de um estado de choque, edema pulmonar com colabamento dos pulmões (atelectasia: colapso pulmonar) ou parada cardiorrespiratória. Um fato curioso é que crianças são mais resistentes aos efeitos da cafeína que adultos. “Mesmo em altas doses, embora possam ocorrer manifestações de intoxicação, mortes são bem mais raras entre elas”, afirma o professor.
Apesar dos perigos relacionados ao excesso de cafeína no organismo, Darcy Lima enfatiza que não é necessário abandonar aquele copo reforçado de café durante o expediente. “São raríssimos os casos relatados de consumo excessivo, o que caracteriza a grande segurança dessa substância aos seus consumidores”, assegura o especialista.
Enfim: Mocinho ou Vilão?
No fim das contas, de que lado o café realmente está? Aliado da saúde ou o malvado da vez? De acordo com o médico, mais de um bilhão de pessoas – 20% da humanidade – tomam café diariamente, tornando essa fruta o mais importante comércio mundial e legal de produtos naturais, depois do petróleo. “Nenhuma outra planta está recebendo tanta atenção da ciência como o café. De vilão no passado, a planta vem recebendo grande apoio como o hábito mais saudável e recomendado da infância até a velhice”, afirma Darcy Lima, apontando novas descobertas que comprovaram os efeitos benéficos do consumo diário de café em doses moderadas:
– O café, através da cafeína, estimula o sistema normal de vigília, a atenção, a concentração e a memória. Mas, além da cafeína (1 a 2%), possui em maior quantidade (7 a 9%) outro grupo de substâncias – os ácidos clorogênicos – que, além de ser antioxidantes naturais comuns nas frutas, na torra adequada forma um grande número de quinídeos, os quais atuam nas células nervosas com uma ação antagonista opióide – explica o professor.
De acordo com o especialista, esse sistema opióide é o responsável por regular o circuito cerebral do prazer, da emoção e da depressão. “Esse antagonismo resulta num bloqueio do desejo de autogratificação que leva o indivíduo a se frustrar, se deprimir e buscar o consumo de álcool ou outras drogas”, exemplifica o médico, contando que o café possui também açúcares, proteínas e lipídeos, além de minerais – assunto que será tratado na próxima edição de Por uma Boa Causa(café e vitaminas).
Lima conta que substâncias também presentes no café são a trigonelina que forma a niacina, uma vitamina do completo B, e diterpenos como cafestol e kaweol. “Como a torra atinge altas temperaturas (180-200ºC), ela causa mudanças químicas importantes nos grãos destruindo as proteínas, açúcares e lipídeos, os quais se combinam em complexas reações originando cerca de mil compostos voláteis”, dizo especialista, que explica:
– Estes compostos são responsáveis pelo forte aroma do café, o mais rico da natureza. Alguns compostos voláteis são muito semelhantes a ferormônios, o que talvez explique o cheirinho gostoso e prazeroso, além da vontade de uma companhia para tomar café – brinca o professor, que finaliza recomendando a bebida, mas fazendo uma pequena ressalva: “Como tudo em excesso, não esqueça: o café também pode fazer mal à saúde”, orienta Darcy Lima.



