Cinthia Pascueto - AgN/PV
Por uma Boa Causa continua nesta semana com a série
Café e Saúde, tema escolhido para o mês de março pelo
Olhar Vital.
Na primeira reportagem, entendemos melhor a relação entre café e as
doenças cardíacas. Desta vez, vamos discutir uma das maiores dúvidas
sobre essa deliciosa bebida:
Café vicia?
Diz a lenda que um pastor de cabras descobriu o café ao encontrar
seus animais mascando certa semente, de uma frutinha vermelho-escura.
Esse pastor apresentou, então, a descoberta a religiosos, que passaram a
consumir a bebida para orar até mais tarde. Em pouco tempo, o gosto
pelo café se espalhou por todo o Oriente Médio, levando até o criador
do Islamismo a render-se aos seus encantos: ficou conhecida como o
Elixir de Maomé. Com as Cruzadas, não demorou muito para os europeus
adotarem o cafezinho. Começava a era das cafeterias. Para sustentar o
luxo de degustar essa bebida escura e levemente amarga, as metrópoles
européias descobriram logo uma solução: cafezais imensos nas Américas.
Está explicado como o Elixir de Maomé foi parar em nosso café da manhã
tupiniquim.
Desde que o gosto pela bebida se espalhou pelos continentes, não
faltam pessoas que alegam ser viciadas em café. Segundo Darcy Lima,
professor no Instituto de Neurologia Deolindo Couto (INDC/UFRJ), esse
vício não passa de mito. “A primeira coisa que cada ser humano faz ao
nascer é se tornar dependente químico. Ao respirar pela primeira vez o
recém-nascido torna-se dependente do oxigênio para todas as atividades
bioquímicas de seu organismo. Por isso podemos ser dependentes de
coisas saudáveis, como água, leite, café e exercícios (hábitos
saudáveis) ou dependentes químicos de substâncias que prejudicam a
saúde (vício), como o tabaco, álcool e drogas ilegais”, diferencia o
professor.
– Tomar café é um hábito saudável comparável ao exercício,
recomendado para pessoas saudáveis, sem doenças, de forma moderada e
regular. Tudo que ocorre na nossa vida causa reações químicas no
cérebro que são responsáveis por alegria ou tristeza, prazer ou dor,
bem como todas as outras emoções possíveis – explica Lima, que garante:
“Café não causa dependência, mas bem-estar.”
Dose ideal
De acordo com o médico, o café pode ser consumido diariamente por
pessoas de todas as idades, entretanto de forma moderada – o que não
causa mal a ninguém. A bebida só não é recomendada para pessoas que
possuem sensibilidade à cafeína, devido a doenças como gastrite,
refluxo gastroesofágico, úlcera péptica, transtorno de ansiedade
generalizada, transtorno do pânico, palpitações devido a arritmias
cardíacas, hipertensão arterial ou doença isquêmica do coração. “O café
pode agravar os sintomas ou a doença, principalmente se consumido em
excesso. É importante, nesses casos, consultar um médico”, alerta Darcy
Lima.
Caso a pessoa sinta qualquer intolerância ao café, deve parar de
consumi-lo. “É importante lembrar que o café não é remédio, mas pode
ser um agente a mais que ajuda na prevenção de várias doenças e
problemas”, ressalta o especialista, que aponta a média de quadro doses
diárias de café como o consumo ideal, com quantidades individuais que
podem variar de acordo com a idade do consumidor (confira o quadro a
seguir).

No entanto, em casos de consumo exagerado o café pode ser
prejudicial à saúde. Darcy Lima conta que uma dose entre 5 e 10 gramas
de café – que correspondem à média de 75 xícaras – pode levar um adulto
à morte. “As principais manifestações são vômitos intensos e
convulsões, seguidos do coma e do óbito. Sinais de intoxicação,
entretanto, podem ocorrer com o uso de doses menores (em torno de 1g),
correspondente à ingestão de 20 a 50 xícaras de café, de uma só vez,
por uma pessoa pouco habituada ao seu uso diário”, exemplifica. Alguns
indivíduos, porém, desenvolvem grande tolerância devido ao consumo
diário de café, apresentando sinais de intoxicação apenas ao ingerir
doses muito mais elevadas.
Para descobrir se uma pessoa passou do limite no consumo de café,
basta observar alguns sinais. As principais manifestações acontecem no
sistema nervoso central e cardiovascular, como insônia, agitação e
hiperexcitabilidade. “A pessoa sente-se inquieta, agitada, com um
discreto mal-estar e ansiedade. A seguir ocorrem taquicardia, sensação
de zumbido nos ouvidos e distúrbios visuais que parecem pequenas
faíscas no ar. A musculatura torna-se tensa e trêmula e podem ocorrer
palpitações, devido ao surgimento de extra-sístoles (descarga elétrica
de células do coração, fora do marcapasso natural desse órgão)”,
descreve o médico.
Nesses casos, a morte pode ocorrer em virtude do aparecimento de
um estado de choque, edema pulmonar com colabamento dos pulmões
(atelectasia: colapso pulmonar) ou parada cardiorrespiratória. Um fato
curioso é que crianças são mais resistentes aos efeitos da cafeína que
adultos. “Mesmo em altas doses, embora possam ocorrer manifestações de
intoxicação, mortes são bem mais raras entre elas”, afirma o professor.
Apesar dos perigos relacionados ao excesso de cafeína no
organismo, Darcy Lima enfatiza que não é necessário abandonar aquele
copo reforçado de café durante o expediente. “São raríssimos os casos
relatados de consumo excessivo, o que caracteriza a grande segurança
dessa substância aos seus consumidores”, assegura o especialista.
Enfim: Mocinho ou Vilão?
No fim das contas, de que lado o café realmente está? Aliado da
saúde ou o malvado da vez? De acordo com o médico, mais de um bilhão
de pessoas – 20% da humanidade – tomam café diariamente, tornando essa
fruta o mais importante comércio mundial e legal de produtos naturais,
depois do petróleo. “Nenhuma outra planta está recebendo tanta atenção
da ciência como o café. De vilão no passado, a planta vem recebendo
grande apoio como o hábito mais saudável e recomendado da infância até a
velhice”, afirma Darcy Lima, apontando novas descobertas que
comprovaram os efeitos benéficos do consumo diário de café em doses
moderadas:
– O café, através da cafeína, estimula o sistema normal de
vigília, a atenção, a concentração e a memória. Mas, além da cafeína (1
a 2%), possui em maior quantidade (7 a 9%) outro grupo de
substâncias – os ácidos clorogênicos – que, além de ser antioxidantes
naturais comuns nas frutas, na torra adequada forma um grande número de
quinídeos, os quais atuam nas células nervosas com uma ação
antagonista opióide – explica o professor.
De acordo com o especialista, esse sistema opióide é o responsável
por regular o circuito cerebral do prazer, da emoção e da depressão.
“Esse antagonismo resulta num bloqueio do desejo de autogratificação
que leva o indivíduo a se frustrar, se deprimir e buscar o consumo de
álcool ou outras drogas”, exemplifica o médico, contando que o café
possui também açúcares, proteínas e lipídeos, além de minerais –
assunto que será tratado na próxima edição de
Por uma Boa Causa(café e vitaminas).
Lima conta que substâncias também presentes no café são a
trigonelina que forma a niacina, uma vitamina do completo B, e
diterpenos como cafestol e kaweol. “Como a torra atinge altas
temperaturas (180-200ºC), ela causa mudanças químicas importantes nos
grãos destruindo as proteínas, açúcares e lipídeos, os quais se
combinam em complexas reações originando cerca de mil compostos
voláteis”, dizo especialista, que explica:
– Estes compostos são responsáveis pelo forte aroma do café, o
mais rico da natureza. Alguns compostos voláteis são muito semelhantes a
ferormônios, o que talvez explique o cheirinho gostoso e prazeroso,
além da vontade de uma companhia para tomar café – brinca o professor,
que finaliza recomendando a bebida, mas fazendo uma pequena ressalva:
“Como tudo em excesso, não esqueça: o café também pode fazer mal à
saúde”, orienta Darcy Lima.